Isabella Lanave

Photographer and journalist
    
Pandemia no campo | Rural pandemic
Location: Brazil
Nationality: Brazilian
Biography: Isabella Santos Lanave is a 26 years old, Latin American photographer, born in the city of Curitiba, in the south of Brazil. Lanave holds a BA in Social Communication – Journalism (PUC - 2016). In 2017 she was cited in  “34 Women... read on
Public Story
Pandemia no campo | Rural pandemic
Copyright Isabella Lanave 2022
Updated Mar 2021
Archived as
A crise do capital e os entendimentos sobre fartura (junho/2020)
Desamparados e ameaçados pelo estado, camponeses de acampamento do MST garantem sua subsistência e doam toneladas de alimentos para ocupações urbanas durante a pandemia
 
 
Às 23 horas o sino improvisado tocou anunciando a prioridade ao silêncio. Às 4 horas da manhã os galos cantavam a alvorada de um domingo de início muito gelado, mas que às 7 horas recebia trabalhadores na roça para a colheita depois de já terem tratados seus bichos. O sol já batia ardido, uns tantos quilos de mandioca já enchiam um caminhão, quando Leninha, 48 anos, cortando as raízes com seu facão, responde o que mais a faz feliz ali: a fartura.
 
 No Acampamento Maila Sabrina do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), em Ortigueira, região central do Paraná, a lógica de vida parece confrontar na prática o mundo lá fora. Porque se sente isso, um mundo lá fora e um mundo lá dentro. Diante de uma crise do capitalismo que se escancara em meio a um vírus invisível que mostra o quanto sempre estivemos doentes quanto sociedade, ainda que diante do desamparo e ameaças do estado, ali se vê e se vive uma organização que garante casa e terra para todos, plantio de subsistência, troca de produtos, vendas externas e, em um momento como esse, doação de alimentos para comunidades em ocupações urbanas que não acessam às condições de autossuficiência, porque a lógica da cidade simplesmente não deixa.
 
 Vinda de Alagoas, Leninha já morou por sete anos no acampamento, mas passou os últimos dois no interior de São Paulo ajudando a filha a cuidar dos netos. Voltou em janeiro para o Maila Sabrina e reencontrou o sentido de sua vida: “Eu adoeci lá, tive pressão alta e nunca tinha tido isso, ficava só pensando ‘naqui’. Tem muita terra, terra produtiva, me sinto à vontade, com liberdade. Eu não tenho ninguém de família assim de sangue aqui, meu filhos ficam falando: ‘porque você vai lá ficar sozinha?’. Trabalho aqui com o povo e esse povo é também minha família, não vejo o dia passar e tenho tempo pras coisas. Aqui é tudo lindo, olha como essa roça é linda, olha essas mandiocas, os bichos, aqui é tudo muito lindo”.
 
 Para ofertar toda essa diversidade, a terra exigiu empenho e cuidado das 350 famílias que foram chegando, revitalizando e produzindo ao longo do tempo. Era pasto, estava fraca quando foi ocupada em 2003 e a ordem de reintegração de posse foi emitida no mesmo ano. A disputa jurídica segue desde então e as ameaças de despejo se intensificaram ao longo de 2019. Mas há um sentimento de pertencimento e abundância que os mantém.
 
 Karina, 18 anos, há 9 anos no acampamento, não se vê fora dalí. Trabalha com a família na roça por oito horas dia, pela noite estuda pedagogia à distância, dividindo seu tempo também com a demanda de coordenadora de setor dentro da organização, além dos jogos de futebol, bailes e diversões, agora parados por conta da pandemia. Com olhos firmes, fala doce, ela afirma que não precisa de nada mais além do que tem ali e deseja dedicar sua vida ao plantar e educar: “Que palavra que posso usar... acho que é satisfação mesmo, uma satisfação viver aqui, plantar o auto sustento e partilhar”.
 
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À mercê das contradições e fragilidades que há em todos espaços onde há seres humanos, no acampamento Maila Sabrina não há um mundo que “acabou” com a chegada do coronavírus, como para muitos de nós. A organização do povo, que se articula em meio a um mundo capitalista, confronta as lógicas da crise, garantindo sua subsistência e fraternidade, com respeito e cuidado com a terra, na atenção ao desenvolvimento individual e coletivo. Em abril, integrantes do acampamento doaram 14 toneladas de alimentos diversos para ocupações urbanas de Curitiba, e as ações continuam desde então espalhadas por diversos acampamentos no país.
 
 Texto por Laís Melo, fotos por Isa

At the mercy of contradictions and weaknesses that exist in all spaces where human beings are present, in the Maila Sabrina camp of the Brazil’s Landless Workers Movement (MST)* there is not a world that “ended” with the arrival of the coronavirus, as for many of us. The people's organization, which is articulated in the midst of a capitalist world, confronts the logic of the crisis, guaranteeing their subsistence and fraternity, with respect and care for the land, in attention to individual and collective development. They are surviving and also donating tons of food for people in need in the cities during this pandemic. In April, members of the camp donated 14 tons of different foods to urban occupations in Curitiba, but the movement is making this action in all states of Brazil. It’s important to say that because the criminalization of the movement, even producing food and moving the economy, the people who live in the camps are at risk of being evicted. Maila Sabrina camp was in this situation until last March, now, they are recurring in the justice.

MST: Brazil’s Landless Workers Movement, formed by rural workers and by all those who want to fight for land reform and against injustice and social inequality in rural areas. It is a stigmatized movement in our country, but they have been going on with the struggle for years.

Text by Laís Melo and photos by Isa
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